BIOTECNOLOGIA NA MANUTENÇÃO DA FERTILIDADE E
SAÚDE DA AGRICULTURA

Paulo Antônio D’Andréa
Engenheiro agrônomo, agricultor
Vice-presidente Instituto Superior de Ciências Aplicadas (ALIE/ ISCA)
Coordenador Grupo Temático Insumos (CSAO/ MAPA)
Diretor Técnico da Microbiol Ind. e Comércio Ltda.
tecnico@microgeo.com.br

1 – INTRODUÇÃO

Há aproximadamente 50 anos a ‘revolução verde’ através do melhoramento genético, fertilizantes, defensivos, herbicidas e mecanização das praticas culturais, rompeu importante paradigma na produção e oferta mundial de alimentos, e atualmente gerando até excedentes para bioenergia. Independente de todos os indicadores positivos, garantindo a oferta de alimentos, celulose, bioenergia e demais matérias primas do agronegócio, houve a necessidade de se desenvolver a nível internacional, mecanismos protecionistas e subsídios para garantirem a sustentabilidade econômica das referidas atividades. Por que as culturas, principalmente em clima tropical, como a fruticultura e cafeicultura, com o passar dos anos vão mudando de áreas ou regiões? Por que tem ocorrido uma verdadeira exclusão social de agricultores tradicionalmente aptos em suas atividades produtivas, assistidos por todo aparato técnico e econômico ao longo dos anos? Por que dificilmente um agricultor consegue transmitir para as gerações seguintes, a mesma atividade agrícola, na sua área de produção original?

Responder a todos esses questionamentos, pode nos levar para as áreas da economia, política, sociologia, ecologia, climatologia e etc. Vamos abordar no contexto da biotecnologia.

2 - NOVO PARADIGMA

            Num dos mais importantes livros que fundamentam a ‘revolução verde’, Natureza e Propriedade dos Solos (Buckman&Brady,1967), no seu primeiro capítulo destaca o sub-título: O Solo – um extraordinário laboratório biológico. Cita que “realmente, a vida do solo desempenha um papel tão saliente e indispensável nas modificações que ocorrem constantemente, que nenhuma discussão sobre solo está completa sem levá-la em consideração”. As modificações biológicas que ocorreram nas últimas décadas, alterando a vida dos solos agrícolas, é o que nos impulsiona a um novo paradigma, para buscarmos respostas a tantas indagações. E a solução está na biotecnologia.  A “Saúde do Solo” foi originalmente o título escolhido por Lynch (1986), para o seu livro, substituído por um mais específico que “sugere ainda uma lógica comum, sustentando bioprocessos e técnicas”. Com o título Biotecnologia do Solo, o livro cita a seguinte definição: biotecnologia de solos como o estudo e manipulação dos microrganismos de solos e seus processos metabólicos para otimizar a produtividade agrícola.

 Se considerarmos na atualidade todo empenho das universidades, centros de pesquisas e empresas, no desenvolvimento do ‘conhecimento’, dos processos e produtos no campo da ‘ciências da vida’, podemos concluir que uma nova era tecnológica se inicia na agricultura, com a biotecnologia. Aplicação de processos biotecnológicos na agricultura remonta a mais de mil anos, tanto na China como na Índia com a utilização de ‘fermentados líquidos’ ou ‘biofertilizantes’, pelos agricultores.

 

3 - A CAUSA E O EFEITO

            Para fundamentarmos o entendimento da importância das relações bióticas na nutrição vegetal, as plantas ao transformarem a energia luminosa em química produzem polissacarídeos, que através dos exsudatos radiculares, vão nutrir a microbiota do solo. Como exemplo, no período vegetativo do milho, chega ao solo 1.250.000 litros de exsudatos radiculares por hectare. Esse abundante volume de açúcares, aminoácidos, ácidos orgânicos, ácidos graxos, fatores de crescimento, nucleotídeos, flavomonas, enzimas e compostos miscelâneos (Cardoso & Freitas,1992), são uma grande usina de energia movimentando uma verdadeira fábrica biológica composta de bactérias, fungos e actinomicetos, e que a resultante da sua produção é a nutrição da própria planta. A importância desse sinergismo biótico na nutrição das culturas, pode ser medida pela presença dos microrganismos na absorção de nutrientes pelas plantas, quando comparados com ambientes em sua ausência. Como exemplo centeio em hidroponia, a presença dos microrganismos aumentou a absorção do nitrogênio em 144% e fósforo em 74%, milho no solo para o potássio em 143% e tomateiro em hidroponia o incremento do fósforo foi de 200% (Moreira & Siqueira, 2002).    

A diversidade vegetal mantém equilíbrio biológico no solo, em função dos diferentes polissacarídeos e substratos que irão nutrir diferentes grupos de microrganismos. Pesquisa na cultura da maçã, avaliando o tempo de cultivo gerando desequilíbrio biológico, conforme quadro abaixo:

    Idade da         Pseudomonas      Actinomicetos      Micromicetos*
Macieira                 %                         %                          %               Relação biológica em:

2 anos                    100                          100                        100                1/1/1 equilíbrio

     19 anos                 35                         41                          71                1/1/2 desequilíbrio

     24 anos                 37                         29                         121               1/1/3 desequilíbrio

     70 anos                  0                          36                         214               0/1/7 desequilíbrio

(*) Micromicetos = Fungos : Penicilium, Fusarium, Alternaria, Helminthosporium, etc.
(Adaptado de Moreira & Siqueira, 2002)

            Com o passar dos anos a presença das bactérias do gênero Pseudomonas e dos actinomicetos vão decrescendo, e os fungos mais que dobram sua população gerando desequilíbrio no solo. Portanto,  a partir de 20 anos de cultivo (relação 1/1/2) de um solo em regime de monocultura, a atividade agrícola se torna economicamente insustentável por dois fatores. A nutrição vegetal é afetada pela redução na população dos actinomicetos que atuam no ciclo do carbono decompondo a lignina e celulose, e das bactérias importantes pela sua funcionalidade no ciclo dos nutrientes como nitrogênio, enxofre, fósforo, etc. O desequilíbrio metabólico decorrente da má nutrição do vegetal irá vulnerabilizar a cultura à ação de insetos se tornando pragas e principalmente o surgimento de novas doenças (Chaboussou, 1985), considerando que aos 70 anos a relação biológica atinge o desequilíbrio de 0/1/7.

            Mesmo em áreas com biodiversidade vegetal como nas florestas tropicais, sendo os fungos preferencialmente organotróficos, ocorre o parasitismo e inevitavelmente se tornam patógenos, quando as plantas entram em fase proteolítica, como no seu florescimento ou estresse ambiental. A cultura do cacau instalada na floresta (cabruca), o fungo Moniliophtera perniciosa, atuando estrategicamente em duas fases, biotrófica e posteriormente necrotrófica (Fioravanti, 2006) acaba provocando a doença vassoura de bruxa no cacaueiro.  Ambientes que apresentam grandes volumes de biomassa se acidificam devido ação dos ácidos orgânicos provenientes da decomposição da matéria orgânica, favorecendo os fungos que são importantes decompositores e atores da própria ciclagem do carbono. As bactérias são mais abundantes em solos com pH neutro, como nos solos dos desertos (Fierer&Jackson,2005), com a predominância das bactérias fotoquimiolitotroficas.

            O tempo provocando desequilíbrio biológico nos solos acaba inviabilizando o replantio ou renovação principalmente das culturas permanentes. Lynch (1986) cita como “doença do solo” ou “problemas de replantio”, o crescimento deficiente de pomares renovados em áreas previamente ocupadas pela mesma espécie. Os sintomas são descritos com plantas apresentando pequeno desenvolvimento do sistema radicular e das copas. Entre as várias causas entende-se que as árvores adultas ainda toleram a presença dos fungos em desequilíbrio no solo, mas as mudas e plantas jovens não, inviabilizando a renovação.
Podemos concluir que a produtividade, sanidade e longevidade das culturas, além dos fatores químicos, físicos, genéticos e ambientais, são dependentes da manutenção da diversidade e equilíbrio dos microrganismos nos solos, ou seja, a manutenção da sua ‘fertilidade biológica’.

 

4 -  A FÁBRICA BIOTECNOLÓGICA

            Para equilibrar e manter a fertilidade biológica do solo, possibilitando a sustentabilidade técnica e econômica de sua atividade, o agricultor além das ações usualmente praticadas, tem que introduzir no manejo das suas culturas, a ‘adubação biológica’ dos seus solos e plantas. Para a realização dessa prática, transferindo ao agricultor conhecimento e domínio do processo biotecnológico de produção do adubo biológico, foi desenvolvido o método chamado Compostagem Líquida Contínua® – CLC®.

            Esse processo foi desenvolvido baseado nos conceitos do ambientalista Adoniel Amparo, pela empresa Microbiol Ind. e Com. Ltda, com pesquisas realizadas no Departamento de Entomologia Fitopatologia e Zoologia Agrícola da ESALQ/USP (D’Andréa, 2004). A CLC® é definida como: “Produção de fertilizante biológico através da fermentação em meio líquido, obtida por associação biológica contínua, alimentada por nutrição químiolito-heterotrófica. O termo ‘compostagem’ referido na CLC®, baseai-se na ecologia microbiana, compreendendo que os diferentes grupos e espécies se interelacionam formando uma rede trófica em equilíbrio biodinâmico interligando o clima (energia solar+água),as plantas, com os ruminantes e os solos num sistema cíclico, gerando compostos orgânicos como substratos e fontes de energia em diferentes padrões de nutrição químio-heterotrófica:

 

Portanto para obtermos a interconexão desse processo trófico entre os vegetais e os solos são utilizados na CLC®, os grupos de microrganismos do rumem bovino. A população biológica do rumem é constituída de bactérias, protozoários e fungos, sendo estimado em 150 bilhões de microrganismos por colher de chá de conteúdo ruminal. A maior e mais diversificada população são as bactérias com mais de 200 espécies, com população chegando a 100 bilhões de células por grama de conteúdo ruminal (Ext.Circ.422). A importância do conhecimento e emprego da microbiologia ruminal nos mais diferentes campos da biotecnologia, pode ser exemplificada pelo sequenciamento do genoma de duas bactérias do rumem (Fibrobacter succinogenes e Ruminococcus albus), realizado pelo grupo North American Consortium for Genomics of Fibrolytic Ruminal Bactéria, formado por cientistas da Ohio State University, The Institute for Genomic Research, Cornell University, University of Illinois e University of Guelph in Canada (Morrison, et al.,2002).

Na produção do adubo biológico, são adicionados num tanque ou piscina de fermentação os seguintes componentes: Microgeo® + água + conteúdo ruminal.

O ‘Componente para Fermentação e Compostagem na Produção de Biofertilizante’(MAPA/D21.12.05) chamado Microgeo® é composto de substancias recalcitrantes, preparados biodinâmicos, pentoses, minerais e farelos. Suas funções na CLC®:

 

 Além dessas funções o Microgeo® como meio de cultura prioriza a presença e crescimento das bactérias, como comprova a “Análise Quantitativa Microbiológica do Biofertilizante Elaborado com Microgeo®” realizada no Laboratório de Patologia e Controle Microbiano de Insetos do Departamento de Entomologia Fitopatologia e Zoologia Agrícola da ESALQ / USP, em meio de cultura MC, BDA e NA, em duas amostras testadas, houve crescimento de bactérias esporulantes e não esporulantes nas concentrações de até 100 milhões de UFC de bactérias / ml, e de até 12,5 milhões de UFC de fungos / ml.  (UFC = unidades formadoras de colônia). O adubo biológico produzido com Microgeo® portanto apresenta composição biológica formada por 89% de bactérias e 11% de fungos (Alves, 2004). 

A CLC® é realizada em tanques abertos, expostos à luz solar, que tem a função de fornecer energia aos organismos fototróficos, como as algas que se estabelecem no sistema.  Os raios ultravioleta da irradiação solar eliminam esporos de microrganismos não desejáveis no meio, adaptando os microrganismos a se estabeleceram no meio ambiente luminoso das culturas e solos, quando aplicado nos mesmos.

A profundidade dos tanques tem que ser no máximo de um metro, para manter o meio anaeróbico em equilíbrio, com realização de pequena aeração manualmente com a utilização de um ‘rodo’, quando possível diariamente. A importância de utilizarmos uma cultura biológica mista em meio anaeróbico/aeróbico controlado, entre outros fatores, está ligado a obtenção do nitrogênio pelas bactérias Azotobacter. Como as Azotobacter não tem a enzima celulase, na fermentação tem que se ligar a um microrganismo celulase-positivo como o Tricoderma, ou encontrar um anaeróbico celulítico fixador de nitrogênio, como o Clostridium, facilmente encontrado numa ‘fossa anaeróbica’(Lynch, 1986). Os microrganismos aeróbicos necessitam de 190 gr de carbono para cada grama de nitrogênio fixado, e os anaeróbicos só precisam de 30gr C/1gr N. Mesmo num processo anaeróbico, a aeração deve ser pequena, dando proteção respiratória à enzima nitrogenase. A fermentação de culturas mistas de Azotobacter, Clostridium e Cellovibrim são tão eficientes na fiação do dinitrogênio, quanto da Azotobacter em cultura pura (Lynch, 1986), justificando assim a diversidade biológica e o método de produção do adubo biológico pela CLC®.

Manter a fermentação de forma contínua, tem como objetivo a obtenção de metabólitos, com grande valor agronômico nas áreas de proteção e estímulo foliar das culturas, transformando o tanque de fermentação numa verdadeira ‘fábrica biotecnológica’ ao alcance do agricultor. O processo de fermentação apresenta quatro fases metabólicas:

1) Latência: Período de adaptação dos microrganismos, após o qual se inicia a fermentação.

2) Crescimento exponencial: Elevado processo de divisão celular, com a produção e liberação de metabólitos primários: carboidratos, aminoácidos, lipídios, nucleotídeos, vitaminas, proteínas e enzimas.

3) Fase estacionária: As células param de se dividir, após juntarem-se, iniciam um processo de diferenciação celular produzindo metabólitos secundários como forma de defesa de suas colônias: antibióticos, toxinas, fenóis, ácidos graxos, fitohormonios (IAA e giberilinas), fosfolipídios, terpenos e citoquininas, todos com alto interesse agronômico.

4) Morte celular (biodegradação): Esgotadas todas as reservas de energia, as células começarão a morrer numa velocidade exponencial (Medeiros,2003).

Cada microrganismo participante degrada alimento para outro, numa relação de interdependência mútua e harmônica e, assim, o processo fermentativo acaba sendo contínuo desde que seja alimentado com meio nutritivo, o que determina na CLC® a reposição do Microgeo®, para a manutenção do processo (Medeiros, 2003). Com a realimentação da CLC® com Microgeo® estaremos promovendo o reinício de novas fases metabólicas de produção, garantindo a presença constante dos metabólitos secundários, em qualquer momento em que o adubo biológico for recolhido do tanque, para a sua aplicação em pulverização foliar nas culturas. 

Informações e recomendações para instalação do tanque de produção do adubo biológico, dose dos componentes para início da produção e manutenção da produção contínua, estão contidas no site: www.microgeo.com.br

 

5 - ADUBAÇÃO BIOLÓGICA NA FERTILIDADE DOS SOLOS

 A prática da adubação biológica com Microgeo® já está difundida na agricultura brasileira, e com início das ações no Paraguai e Uganda na África. Como essa prática visa a fertilidade biológica do solo, ela atende indistintamente a necessidade de todas as culturas, só variando a concentração da diluição em água de 5% a 50%, em função da freqüência e do tipo do equipamento de aplicação ou pulverização. Recomenda-se durante o ciclo de produção da cultura a dose de 100 a 300 litros/ hectare do adubo biológico. Tem sido utilizado nas mais diferentes culturas, como hortaliças, ervas aromáticas e flores, cana de açúcar, feijão, soja, milho, café, coco, cacau, citros, banana, goiaba como também em pastagens. A sua aplicação é viável tanto nas culturas intensivas em estufas, como nas grandes culturas.

Pesquisas com tomate industrial em manejo integrado, realizada pela empresa Agroteste, valida a ação da adubação biológica com Microgeo® otimizando a produtividade e qualidade do tomate, ao incrementar a atividade biológica dos actinomicetos e Pseudomonas no solo. O experimento foi instalado e conduzido na Estação Experimental da Unilever Best Foods - Arisco em Goiânia / GO. O cultivar plantado foi ‘U729’, com adubação de 1600 kg/ha de 4-30-16 no plantio e 400 kg/ha de 25-00-20 em cobertura, com irrigação do tipo pivô central. Na instalação da cultura foi aplicado no solo 25 Lt/ha de Microgeo® e mais quatro pulverizações foliares com Microgeo® nas doses de 3,0; 4,5; 6,0 e 6,0 Lt/ha aos 41, 53, 83 e 93 dias. Nas pulverizações também foram utilizados conjuntamente defensivos específicos como Actara, Cercobin, Folicur, Rocksil, Dithane, Tamaron, Bac Control, Boveril e Tricodermil (Gitirana Neto et al, 2005). Os resultados estão assim relacionados:


Resultados

Testemunha

Manejo Integrado

Pseudomonas spp.

5,0 x 105  

7,0 x 105

Actinomicetos

2,0 x 10²

3,4 x 10²

Fungos totais

5,0 x 105

5,0 x 105

Bactérias  totais

4,2 x 105

2,8 x 105

Produtividade

117 ton / ha

131,7 ton / ha

Frutos verdes

8,2 ton / ha

10,6 ton / ha

Frutos descoloridos

11,1 ton / ha

4,8 ton / ha

Frutos desintegrados

8,8 ton / ha

5,3 ton / ha

Graus Brix

4,3

4,8

Controle fitossanitário

Controle equivalente

Controle equivalente

 

 

 

 

 

 

          Portanto o efeito da adubação biológica com Microgeo® aumentando a população dos Actinomicetos em 70% e das Pseudomonas em 40%, permitiu ganhos de 12,6% na produtividade, 29,2% na qualidade e 11,6% (°Brix) no rendimento industrial do tomate. 

Tese de doutorado da eng. agr. Soraya França, comparando a atividade microbiana de pomar de citros convencional com pomar de manejo orgânico que recebeu adubação biológica com Microgeo® conclui:


                                                                   Convencional                      Orgânico

Respiração basal (mg CO2 g solo dia)            13,6 ± 1,0                         35  ± 1,6*

Biomassa biológica C (mg C g solo)            213,8± 15,8                     281,3± 22,0*

Quociente metabólico (qCO2)                      0,06± 0,003                      0,12± 0,01*

(*) indica que há diferença entre médias (P£ 0,05) pelo teste t. nº amostras compostas = 5

A mesma pesquisa compara o desenvolvimento do sistema radicular no solo com adubação biológica, em massa de matéria fresca de raiz em 14,5± 5,3 gr/Lt de solo e sem adubação biológica somente 4,3± 0,4 gr/Lt solo. Além do sistema radicular do citros orgânico explorar uma área volumétrica de solo maior, apresenta 22 espécies de fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) contra somente 12 espécies no convencional. Dentre as espécies identificadas temos Glomus sinuosum, Acaulospora scrobiculata e Scutellospora cerradensis (França, 2004).Esses fungos vivendo simbióticamente no sistema radicular (rizosfera) das plantas se alimentam dos aminoácidos e açúcares gerados pelas mesmas e através de sua respiração atuam no ciclo do etileno (Pinheiro Machado,2004), solubilizando os minerais do solo para a nutrição das plantas.

Recomendações de uso da adubação biológica no solo de todas as culturas e pastagens, em fertirrigação e também na compostagem da biomassa e resíduos orgânicos estão disponíveis no site: www.microgeo.com.br

 

6 - ADUBAÇÃO BIOLÓGICA NA SAÚDE DAS PLANTAS

             Filosfera é o ecossistema formado por bactérias, fungos e algas, na superfície das folhas das plantas, recobrindo-as com um emaranhado biológico, que observados em microscopia eletrônica, parece uma ‘floresta microbiológica’. Esta microfloresta também conhecida como biofilme, vem sendo estudado pelo pesquisador Marcio Lambais, na ESALQ/USP, em três espécies de árvores da mata atlântica. Como resultado desse ‘censo genético’ das bactérias que habitam a superfície vegetal, foi de até 671 espécies/amostra, apenas 0,5% das espécies das bactérias eram comum às 3 árvores, 97% das bactérias eram desconhecidas da ciência, concluindo que 13 milhões são o número de espécies de bactérias que podem existir formando o biofilme sobre as plantas (Lambais, 2006). Afirma Lambais que as bactérias não estão “sentadas” na superfície das folhas por acaso: “Na agricultura, é sabido que a alteração da composição de bactérias da flora pode favorecer o desenvolvimento de organismos patogênicos”, e conclui “As bactérias estão interagindo intimamente com as plantas para garantir sua sobrevivência no ambiente” (Lambais 2006). A manutenção do biofilme que recobre a superfície foliar e o sistema radicular (rizosfera) é vital para perpetuar relações funcionais sinérgicas e simbióticas para nutrição e saúde das plantas. 

            No processo CLC®, ao se utilizar a atividade biológica dos herbívoros ruminantes na produção do adubo biológico, estamos também utilizando do biofilme dos vegetais como as gramíneas, ampliando a biodiversidade microbiológica, principalmente para o equilíbrio biológico na manutenção da saúde das monoculturas.

            Ao realizarmos pulverização foliar com adubo biológico ao enriquecer o biofilme das culturas, a sua ação na filosfera, ocorre principalmente por vias biótica e abiótica.

6.1 - AÇÃO BIÓTICA DA ADUBAÇÃO BIOLÓGICA FOLIAR

             Tese de doutorado do prof. Marcos Barros de Medeiros, na ESALQ/USP, avalia a ação do biofertilizante produzido com Microgeo® sobre a bioecologia do ácaro Brevipalpus phoenicis. Folhas de Canavalia ensiformis foram infestadas com população de fêmeas de ácaros da leprose delimitadas por uma arena de contenção (Tangelffot), e após ovoposição foram retiradas, mantendo só os ovos dentro da arena foliar. Foram dois tratamentos, adubo biológico a 5% e testemunha só com água destilada, sendo as pulverizações direcionadas para as folhas sem as arenas, portanto sem a presença dos ovos. Avaliações foram realizadas até 55 dias após a ovoposição. Como resultado a mortalidade dos ácaros durante a fase imatura (ovo-adulto) nas plantas tratadas com biofertilizante foi de 15,27% (Abbott, 1925) maior que a da testemunha (Teste de Wald, p=0,07). Esse resultado comprova a ação biótica do adubo biológico, induzindo as plantas a produzir suas próprias defesas (Medeiros, 2002).

            O adubo biológico, por apresentar uma diversidade de microrganismos neutros e inócuos quando pulverizado nas plantas, desencadeia nas mesmas uma ‘resposta de defesa’, a um possível ‘ataque’, pela incapacidade de detectarem se esses organismos são nocivos. E assim o processo de RSI (Resistência Sistêmica Induzida) é ativado, com a produção de sustâncias químicas de defesa, pela plantas, chamadas fitoalexinas.

Como esse mecanismo de defesa é comum a todas as plantas, atuando indistintamente sobre as pragas e doenças, é recomendada a pulverização foliar com Microgeo® para todas as culturas, variando a dose (1% a 5%) e a freqüência de aplicações em função da cultura e época do ano.

 

6.2 - AÇÃO ABIÓTICA DA ADUBAÇÃO BIOLÓGICA FOLIAR

Com a realimentação da CLC® com Microgeo® estaremos garantindo a presença constante dos metabólitos secundários, e nutrientes que terão múltiplas ações na nutrição, florescimento, saúde e produção das culturas. Essa múltipla ação biótica e abiótica é comprovada por Berzaghi (2002), ao realizar a pesquisa ‘Manejo Ecológico da Mosca Branca (Bemisia tabaci biotipo B) no Cultivo de Tomate em Condições de Campo’.

 Realizando pulverizações a 3% do adubo biológico produzido com Microgeo®, obteve os seguintes resultados. Na ação biótica ativando a RSI, inibiu a ovoposição da mosca branca reduzindo o número médio de ovos/área foliar de 10,47 na testemunha, para 5,66 na área tratada. Ocorreu também ação abiótica dos metabólitos secundários com efeito fitohormonal promovendo maior florescimento das plantas, e na nutrição com maior peso dos frutos. Na variedade Jumbo, número médio de flores/planta foi de 1,933 na área tratada, diferindo estatisticamente da testemunha com 0,1333 (Tukey a 5% prob.). O grupo de plantas que recebeu os tratamentos semanais apresentou um peso médio de 49,81 gr/fruto, também diferindo estatisticamente da testemunha com 38,86 gr/fruto (Tukey a 5% prob.) (Berzaghi, 2002).

Recomendações do uso da adubação biológica foliar para todas as culturas, com suas respectivas doses, épocas e freqüência de pulverização estão disponíveis no site: www.microgeo.com.br

 

7- CONCLUSÃO

 A necessidade de se produzir alimentos, bioenergia, celulose, madeira e etc, para  atender a demanda global atual e vindoura, é dependente da nossa capacidade de interagirmos e respeitarmos os ciclos biogeoquímicos da natureza, entendendo que essas atividades estão inseridas e são sistemas dinamicamente ‘vivos’. Ao colocarmos em prática o conhecimento em microbiologia, biologia, bioquímica, geofísica e genética, através da biotecnologia agrícola, estaremos ‘colhendo da terra’ todas as nossas necessidades, de forma perpetuamente sustentável. Portanto a adubação biológica se insere como importante prática na recuperação e manutenção de fertilidade do solo e saúde da agricultura e demais atividades básicas para nossa existência.       

 

FONTE : Capítulo ‘ADUBAÇÃO BIOLÓGICA’, da apostila do VIII CURSO DE FERTIRRIGAÇÃO: NOVAS TECNOLOGICAS NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA INTENSIVA, ministrado durante a 14ª HORTITEC (11a 13/6/2007)  por:
Dr. Washington Padilla G. Ph. D. Grupo Clínica Agrícola - Equador
Eng. Agr. Ana Paula Sá Leitão Flortec - Brasil
Eng. Agr. Paulo D’Andréa Microbiol - Brasil

 

8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Microgeo

 

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